New York, 30/4. 4 horas da manhã. 4 graus. A fila, 4 quadras. O clipe, 4 Minutes.
Estamos a 18 horas e umas centenas de metros de ver Madonna ao vivo, numa performance fechada de lançamento mundial do CD Hard Candy. Na noite anterior passamos pelo Roseland Ballroom na 52nd street e um segurança desinteressado nos informou que os ingressos gratuitos seriam distribuídos a partir das seis da manhã do dia seguinte. Acabávamos de sair de um restaurante grego, bem pequeno, iluminado à luz de velas e com Filet Sole (peixe) excelente. Fomos para casa, e com despertador armado para as 3:50am deitamos não muito seguros se nossa aventura ia acontecer ou não.
3:50am. O despertador tocou. Sentamos na cama mais despertos do que o normal, as roupas para vestir já estavam separadas, nos vestimos e saímos. Duas calças, três blusões, chapéu, tapa orelha, cachecol, luvas. Estava bastante frio, mas estávamos bem preparados. Pegamos a fila no final da terceira quadra, curiosamente na frente de uma vitrine de farmácia com os dizeres Open 24 Hours. Muitas pessoas com cobertores e cadeiras, praticamente acampadas na noite fria da cidade que nunca dorme. O clima era tenso, ninguém sabia quantos ingressos estavam disponíveis e não havia nenhuma garantia de quanto tempo ficaríamos esperando.
Atentos a todos os detalhes, fomos entendendo como as coisas funcionavam. Pessoas jovens, velhas, gordas, magras, altas, baixas, essencialmente americanos, mesmo que os traços multinacionais das repetidas migrações
dissessem ao contrário, éramos dos poucos estrangeiros naquela fila da madrugada. Por volta das seis horas a agitação começou. Primeiro um burburinho silencioso, depois a certeza de que os ingressos iam mesmo ser distribuídos. Já era tempo, a ansiedade aumentou o frio que começou a subir pelas pernas, e a temperatura baixou para 3 graus com os primeiros ventos da manhã e os primeiros trabalhadores correndo encapotados ao lado da nossa fila. Aos poucos, por volta das sete horas a fila começou a se mover. A tensão aumentava a cada instante, e por volta das oito e quarenta da manhã quando estávamos a poucos metros do sujeito que colocava uma fita de credencial nos pulsos de quem estava na fila, percebi que aquilo ia mesmo acontecer. Muita adrenalina. Estar em New York, na fila desde as quatro da manhã, num frio congelante para ver um show exclusivo de Madonna…nem parecia verdade. Com os pulsos amarrados pela fita branca onde se lia This Is Not A Ticket, voltamos para casa cansados, incrédulos e extasiados. Eu ainda precisava trabalhar o dia inteiro.


Chegamos de volta para a fila do show as sete da noite. As mesmas pessoas, mais arrumadas, sem a cara de mendigo da madrugada esperavam com sorrisos no rosto. Estava garantido, quem tivesse a fita credencial branca amarrada no pulso poderia entrar. Vimos os VIPs chegarem, os paparazzi, as limusines. Vimos os produtores, os maquiadores, ouvimos o som sendo repassado. E quando chegou nossa vez de entrar e nos deram a segunda fita de pulso, estava escrito em preto sobre um fundo verde: Madonna Hard Candy Promo Show, não havia mais dúvida, nós estávamos lá.
O clima dentro do Roseland Ballroom era de euforia. Um DJ com fones de ouvido incrustrados de pedras brilhantes tocava sucessos dos anos 80 remixados. Deu vontade de dançar. E quando faltavam alguns minutos para o início do show, uma sequência de músicas com a palavra Candy começou pelo sucesso Candy Shop e culminou no apagar das luzes e na aparição de Madonna com cetro de Rainha Pop na mão, sentada em um trono, cercada de painéis luminosos cor de rosa e saltos altos. Foi inesquecível. Estávamos ali, a menos de 50 metros de um ícone de nossa história musical, e foi difícil ignorar quantas noite passamos na rua embalados pelas músicas daquela senhora.

Ao vivo e bem de perto, Madonna é impressionante. Sua presença é muito forte. Era possível ver o olhar, e parecia que ela olhava cada um nos olhos. Braços fortes, movimentos elegantes, tomando conta de um palco enorme como se fosse um espaço peqeno. Energética e assustadora, uma assustadora sensualidade de cinquenta anos, cantou por 40 minutos as músicas do novo CD. Na terceira música outra surpresa, Justin Timberlake subiu ao palco para interpretar 4 minutes com ela e Timbaland, que só apareceu nos telões que se moviam pelo palco. Justin manda muito e a musa se referiu a ele como um garoto competente e inteligente. Mas Madonna ainda é Madonna. Com um violão nos braços, arrancando acordes pesados conversou com a platéia, pediu desculpas a New York afirmando que ainda não estava pronta, mas quando estivesse, voltaria. O Roseland respondeu em coro.



Ao acender das luzes ninguém queria ir embora. Ficamos todos por ali, dançando ao som de música eletrônica, com o olhar esbugalhado, agitados, sorriso permanente. Na rua as pessoas que saíam do show gritavam, pulavam, corriam. Os turistas ao redor da Times Square não entendiam, a velocidade de New York não dá tempo para os turistas pensarem, basta se deixar levar pelo ritmo alucinante da diversão em cada esquina. Mas nós, nós não estávamos nessa batida. Estávamos tranquilos, animados, felizes e marcados em cada instante que vivemos dentro e fora do Roseland Ballroom. Depois de 4 da manhã, 4 graus, 4 blocos e 4 minutos, heveria ainda muito tempo para pensar no que nos aconteceu. Na maior cidade do mundo, a melhor aventura de todas.