Diego chorou. Cielo também.

Agosto 17, 2008

Diego Hypolito (é assim que se escreve?) e Cesar Cielo choraram nas Olimpíadas. Mesmo que eu não quisesse saber nada dessa competição, não seria possível. Vivemos todos ao redor desse tema ultimamente. Ao mesmo tempo em que torço, tenho a certeza de que não temos nenhuma chance. É mais uma dessas coisas estranhas que nós brasileiros fazemos, fingir que não está acontecendo. Fingimos que estamos preparados para competir com países que têm políticas de formação de atletas, problemas sociais em pequena escala, desigualdade social muito pequena, competição em nível de escolas e universidades formando atletas e despontando talentos desde cedo. Fingimos que um atleta que saiu de uma favela, que teve educação inadequada, que não teve alimentação equilibrada nos primeiros dez anos de vida, que teve ou tem uma estrutura familiar inconsistente pode competir em condições de igualdade. Estamos acostumados com o futebol, onde o talento individual supera qualquer barreira, onde qualquer fundo de quintal é uma quadra, mas nos esportes olímpicos clássicos é preciso muito mais. Por isso acho que o choro de Cielo e de Diego eram o mesmo. Diego chorou a chance perdida, o tempo perdido, as condições inadequadas, a insuficiência de patrocínio, o descaso dos gabinetes, o desamparo psicológico. Cielo chorou o afastamento da família para ter uma chance, abandonou tudo e todos, foi morar longe com gente diferente, comida diferente, vida diferente. No fundo, os dois choravam o mesmo, o desamparo do país onde nasceram. Na minha opinião, medalhistas ou não, nossos atletas valem ouro. Conseguir sobreviver de esporte em um país onde falta tanta coisa é mesmo de orgulhar qualquer um.


Gay Pride Parade – New York

Junho 30, 2008

Domingo, 29 de junho, saímos de metrô para ver umas obras do Richard Meier in New York. Pegamos a linha 1 e lá pelas tantas comecei a achar que a quantidade de gays era maior do que o normal no carro em que estávamos. Principalmente duas mulheres “se pegando” na porta, e outras duas sentadas uma no colo da outra, com shortinho bem curtinho e meias coloridas. Mas tivemos certeza de que tinha algo acontecendo quando uns caras entraram enrrolados na bandeira do arco irís. Fiz sinal para a Aline (vamos seguir eles) e ela topou na hora, já com aquela cara de menino que ela faz quando tem algo legal acontecendo. Quando todo mundo desceu, descemos juntos. Pronto. A confusão estava formada. Sob uma chuva muito forte a polícia organizava a saída caótica do metrô na estação Christopher-Sheridan. Demos de cara com a Gay & Lesbian Pride Parade em plena rua Christopher, a rua mais gay do mundo, segundo eles dizem. Lá se concentram lojas de artigos eróticos e especializadas em público gay. O nome verdadeiro da marcha é New York´s City Lesbian Gay Bisexual Transgender Pride March 2008. Muita gente na rua, música alta e pessoas acompanhando nas escadas de incêndio e janelas do Village. Seguimos a parada por umas 3 horas. Mais de 300 associações, grupos ou entidades desfilam durante o dia todo divcididos por seções (esportistas, fetichistas, políticos, países, religiosos…), e as 2p.m. é o Momento of the Silence (momento do silêncio), quando todas as igrejas no percurso da parada que vai da 5th avenue até a Christopher street tocam os sinos em reconhecimento aos que ficaram para trás na corrida contra a AIDS e as barreiras do preconceito. Quando passou a delegação do Brasil, sob uma batucada meio manca, a galera enlouqueceu. Pegamos muita chuva, comemos um risoto às 5 da tarde na Risoteria da Bleecker Street e voltamos para casa. A multidão de Gays e Lésbicas ia de um lado para o outro, agitados, animados, em grupos ou sozinhos, curtindo o dia mais feliz da comunidade que termina numa grande festa com música, dança, fogos de artifício e muitos romances na beira do Hudson River tarde da noite de domingo. Para falar a verdade foi uma experiência diferente, nunca vi tanta bunda de homem junto na minha vida. Uma verdadeira Lou-cu-ra.

FUTILIDADES – Aline Figueiró, Aos pés de New York
Em Manhattan se caminha muito porque o metrô corta a região de norte a sul e as transversais têm que ser feitas a pé. Por isso as mulheres usam muito salto baixo, quase não se vê salto alto. Mesmo na noite, o salto alto dá lugar para as rasteirinhas. As sapatilhas são o must, e as sandálias do tipo gladiador a super-ultra-hiper moda do verão, é o que há! com vestidinho franzido na cintura bem curtinho. Flip-flops também são muito usadas. Traga suas Havaianas, As Legítimas, aquela com as tiras douradas, elas vão morrer de inveja.

Aniversário

Junho 22, 2008

Sexta-feira foi meu aniversário. Quando eu era criança, faltava a aula nesse dia, e quando comecei a trabalhar, faltava ao trabalho. Sempre fiz isso, ficava fazendo coisas mais divertidas ou não fazendo nada em casa. Pela primeira vez em 45 anos não deu para faltar ao trabalho e tive que trabalhar no dia do meu aniversário. Em compensação, eu e a Lili almoçamos no A.J.Maxwell´s (57 W 48th St), considerado um dos dez melhores steaks dos EUA. A conta foi cara, muito cara, mas a proposta era experimentar um pouco da NY inacessível. Á noite pegampos o trem e fomos para o Greenwich Village. Jantamos num italiano chamado Cafe del Mare (89 Macdougal St) onde um garçom gordinho reclamou da Aline porque ela colocou queijo ralado em cima do risoto de camarões e cogumelos. Acho que por causa do nome do restaurante, falamos bastante sobre Santa Maria del Mar em Barcelona, a catedral que inspirou Le Corbusier a pesquisar uma nova luz para Ronchamp. Dali saímos para um bar com música ao vivo chamado The Bitter End (149 Bleecker St), que como diz o nome (Amargo Final) fica aberto até bem tarde de madrugada. No Bitter a banda toca por cerca de uma hora e depois é substituída por outra. Isso acontece a noite toda. Ouvimos várias bandas e tomamos várias Budweiser, sempre lembrando de deixar sobre o balcão um dólar para cada cerveja para a Bartender. Voltamos de táxi para casa e o resultado foi dormir no domingo até as onze. NY é um bom lugar para comemorar o aniversário.

Chegando de mudança

Junho 20, 2008

Então tá. Depois de usar o blogspot por algum tempo, descobri o wordpress e me mudei de vez para cá. Este blog conta minhas andanças por New York e outras cidades nos EUA durante o tempo em que estou trabalhando por aqui. Se você quiser conhecer a saga desde o princípio, visite o blog antigo em http://marcelopontesny.blogspot.com , ou navegue para os primeiros posts aqui mesmo. Dê uma circulada e veja se alguma coisa lhe interessa, na pior das hipóteses Eu vou me divertir, quem sabe você pega carona? Hoje, 20 de junho, é meu aniversário, parece um bom dia para mudanças, a partir de hoje, New York é Aqui!


Mama Mia!

Junho 1, 2008

Junte algumas músicas do grupo musical Abba dos anos 70, uma história de uma menina que que conhecer o pai às vésperas do casamento, uma ilha grega, jogue tudo em um teatro na Broadway e você vai ter um musical explosivo. Mamma Mia! é tudo o que dizem dele. Explosivo, entusiástico e envolvente.

Fomos caminhando da estação na Fulton Street (linha amarela trem W) descendo em direção ao Píer 17, de onde se tem boas vistas da Ponte do Brooklyn. Nós sabíamos que lá embaixo na South Street Seaport tem uma loja da TKTS que quase nenhum turista conhece, é uma espécie de compensação para os novaiorquinos, em troca de emprestarem a cidade deles para 44 milhões de pessoas por ano. A TKTS é uma organização da Theater Development Fund, um fundo para desenvolvimento do teatro, cuja missão é propiciar que públicos de todos os tipos possam vivenciar a experiência teatral vendendo ingressos mais baratos para os espetáculos Broadway e Off Broadway. Uma das lojas fica na 46th Street, entre a Broadway e a 8th Avenue, ao lado do Marriot Hotel. Dependendo do dia as filas são enormes, mas com um pouco de paciência e boa vontade você pode conseguir ingressos com até 50% de desconto para qualquer peça ou musical. Na TKTS fora do mega-eixo turístico da Times Square conseguimos os ingressos com desconto para assistir Mamma Mia!.

O teatro fica bem perto aqui de casa, na Broadway entre a 50th e a 51st (moramos na esquina da 51st a uma quadra da Broadway). Voltamos para casa depois de umas voltas e saímos para o teatro as sete e meia. Eu sabia que tínhamos comprado Orchestra (a platéia de baixo), mas achei que a fila era “O”, décima quinta fila, estava enganado, a fila era “C”. Isso mesmo, terceira fila. Um pouco para o lado, mas ainda assim excelentes ingressos. Perto de nós estava a banda que toca ao vivo embaixo do palco com dois teclados, baixo, duas guitarras, bateria e um maestro.

Mamma Mia! é uma história leve e descomplicada, sobre uma menina que mora com a mãe em uma ilha grega e está às vésperas de seu casamento. Tudo que ela queria era conhecer seu verdadeiro pai que ela nunca soube quem era e de quem sua mãe nunca falou. Aí que começam os problemas, pois ela convida os três prováveis pais para o casamento. Não vou contar o resto porque o musical fez tanto sucesso nesses seis anos continuous em New York, Moscou, Berlin, Barcelona, Las Vegas e Londres que Hollywood adotou a idéia e o filme vai ser lançado em junho (por aqui) estrelando Maryl Streep no papel de Donna Sheridan, a mãe da noiva. Como diz a sinopse da peça, é o ultimate feel-good show, algo como “definitivamente o espetáculo para fazer você se sentir bem”, e acredite, funciona. O texto e a história têm como pano central as músicas do Abba, também, pudera, a peça foi escrita pelos ex-integrantes do grupo em 2002. As músicas fazem parte dos diálogos e são o centro da ação, incluindo super-sucessos como Dancing Queen, Chiquitita e The Winner Takes It All. Com uma montagem bastante animada, num ritmo excitante, com números de coreografia e de interpretação de músicas solo e diálogos engraçados Mamma Mia! cativa a platéia desde os primeiros minutos. Eu confesso que não fui fã do Abba, pelo menos não como a Aline que ouvia uma fita cassete (fita o que?) todo dia na hora do almoço, mas mesmo assim entrei no embalo do musical. Não tem nada errado, nada sobrando ou faltando, tudo na dose certa, com uma competência de deixar a gente literalmente de boca aberta em alguns momentos. Eu, que sempre usei a camiseta “Vá ao teatro, mas não me convide“, estou tendo que dar a cara à tapa, a Broadway é demais. Mamma Mia! é demais.


Madonna

Maio 28, 2008
New York, 30/4. 4 horas da manhã. 4 graus. A fila, 4 quadras. O clipe, 4 Minutes.

Estamos a 18 horas e umas centenas de metros de ver Madonna ao vivo, numa performance fechada de lançamento mundial do CD Hard Candy. Na noite anterior passamos pelo Roseland Ballroom na 52nd street e um segurança desinteressado nos informou que os ingressos gratuitos seriam distribuídos a partir das seis da manhã do dia seguinte. Acabávamos de sair de um restaurante grego, bem pequeno, iluminado à luz de velas e com Filet Sole (peixe) excelente. Fomos para casa, e com despertador armado para as 3:50am deitamos não muito seguros se nossa aventura ia acontecer ou não.

3:50am. O despertador tocou. Sentamos na cama mais despertos do que o normal, as roupas para vestir já estavam separadas, nos vestimos e saímos. Duas calças, três blusões, chapéu, tapa orelha, cachecol, luvas. Estava bastante frio, mas estávamos bem preparados. Pegamos a fila no final da terceira quadra, curiosamente na frente de uma vitrine de farmácia com os dizeres Open 24 Hours. Muitas pessoas com cobertores e cadeiras, praticamente acampadas na noite fria da cidade que nunca dorme. O clima era tenso, ninguém sabia quantos ingressos estavam disponíveis e não havia nenhuma garantia de quanto tempo ficaríamos esperando.

Atentos a todos os detalhes, fomos entendendo como as coisas funcionavam. Pessoas jovens, velhas, gordas, magras, altas, baixas, essencialmente americanos, mesmo que os traços multinacionais das repetidas migrações dissessem ao contrário, éramos dos poucos estrangeiros naquela fila da madrugada. Por volta das seis horas a agitação começou. Primeiro um burburinho silencioso, depois a certeza de que os ingressos iam mesmo ser distribuídos. Já era tempo, a ansiedade aumentou o frio que começou a subir pelas pernas, e a temperatura baixou para 3 graus com os primeiros ventos da manhã e os primeiros trabalhadores correndo encapotados ao lado da nossa fila. Aos poucos, por volta das sete horas a fila começou a se mover. A tensão aumentava a cada instante, e por volta das oito e quarenta da manhã quando estávamos a poucos metros do sujeito que colocava uma fita de credencial nos pulsos de quem estava na fila, percebi que aquilo ia mesmo acontecer. Muita adrenalina. Estar em New York, na fila desde as quatro da manhã, num frio congelante para ver um show exclusivo de Madonna…nem parecia verdade. Com os pulsos amarrados pela fita branca onde se lia This Is Not A Ticket, voltamos para casa cansados, incrédulos e extasiados. Eu ainda precisava trabalhar o dia inteiro.

Chegamos de volta para a fila do show as sete da noite. As mesmas pessoas, mais arrumadas, sem a cara de mendigo da madrugada esperavam com sorrisos no rosto. Estava garantido, quem tivesse a fita credencial branca amarrada no pulso poderia entrar. Vimos os VIPs chegarem, os paparazzi, as limusines. Vimos os produtores, os maquiadores, ouvimos o som sendo repassado. E quando chegou nossa vez de entrar e nos deram a segunda fita de pulso, estava escrito em preto sobre um fundo verde: Madonna Hard Candy Promo Show, não havia mais dúvida, nós estávamos lá.

O clima dentro do Roseland Ballroom era de euforia. Um DJ com fones de ouvido incrustrados de pedras brilhantes tocava sucessos dos anos 80 remixados. Deu vontade de dançar. E quando faltavam alguns minutos para o início do show, uma sequência de músicas com a palavra Candy começou pelo sucesso Candy Shop e culminou no apagar das luzes e na aparição de Madonna com cetro de Rainha Pop na mão, sentada em um trono, cercada de painéis luminosos cor de rosa e saltos altos. Foi inesquecível. Estávamos ali, a menos de 50 metros de um ícone de nossa história musical, e foi difícil ignorar quantas noite passamos na rua embalados pelas músicas daquela senhora.

Ao vivo e bem de perto, Madonna é impressionante. Sua presença é muito forte. Era possível ver o olhar, e parecia que ela olhava cada um nos olhos. Braços fortes, movimentos elegantes, tomando conta de um palco enorme como se fosse um espaço peqeno. Energética e assustadora, uma assustadora sensualidade de cinquenta anos, cantou por 40 minutos as músicas do novo CD. Na terceira música outra surpresa, Justin Timberlake subiu ao palco para interpretar 4 minutes com ela e Timbaland, que só apareceu nos telões que se moviam pelo palco. Justin manda muito e a musa se referiu a ele como um garoto competente e inteligente. Mas Madonna ainda é Madonna. Com um violão nos braços, arrancando acordes pesados conversou com a platéia, pediu desculpas a New York afirmando que ainda não estava pronta, mas quando estivesse, voltaria. O Roseland respondeu em coro.

Ao acender das luzes ninguém queria ir embora. Ficamos todos por ali, dançando ao som de música eletrônica, com o olhar esbugalhado, agitados, sorriso permanente. Na rua as pessoas que saíam do show gritavam, pulavam, corriam. Os turistas ao redor da Times Square não entendiam, a velocidade de New York não dá tempo para os turistas pensarem, basta se deixar levar pelo ritmo alucinante da diversão em cada esquina. Mas nós, nós não estávamos nessa batida. Estávamos tranquilos, animados, felizes e marcados em cada instante que vivemos dentro e fora do Roseland Ballroom. Depois de 4 da manhã, 4 graus, 4 blocos e 4 minutos, heveria ainda muito tempo para pensar no que nos aconteceu. Na maior cidade do mundo, a melhor aventura de todas.


Where Dreams Come True*

Maio 10, 2008

Quando eu era criança e estudava no Anchieta, quase todos meus colegas foram para a Disney. Em compensação, a Aline que estudou toda a vida dela em escola pública só teve um colega que foi para lá.

Pois com muitos anos de atraso, agora chegou a nossa vez.

A Aline quase não conseguiu dormir de quinta para sexta, estava tudo planejado para passarmos o final de semana em Orlando e conhecer tantos parques quantos fosse possível. Na verdade pensamos em conhecer só dois, e foi difícil escolher entre tantas opções. Mas depois de convensar com verteranos de Disney que foram 8 ou 9 vezes, nos aconselharam a fazer o básico, magic Kingdom, Epcot e Universal Studios. Decidimos pelo Epcot no sábado e Universal Studios no domingo. Tudo certo até o embarque, o vôo atrasou uma hora e meia e chegamos em Orlando meia noite. Bastante calor, os termômetros marcando 28 graus (já converti os Farenheit para simplificar) e um motorista de táxi do Haiti que disse que o país dele era muito grato ao Brasil pela ajuda e pelo jogo que a seleção jogou lá para ajudar a recompor a paz. Orlando é uma cidade muito estranha, com 2,5 milhões de habitantes quase não se vê pessoas e residências nas áreas turísticas, os condomínios isolados e com infra-estrutura completa são o tipo de habitação mais comum. Nosso hotel era o Hilton Garden Inn, e se parasse por aqui ia parecer muito melhor do que era, um hotel gasto e turístico, mas com cama boa, banheiro limpo e produtos Neutrogena no banheiro. Mas não importava, queríamos mesmo ir na Disney. O Derli Rodrigues, um grande amigo e bom arquiteto que trabalhou comigo e era guia da Tia Iara sempre me dizia que todo arquiteto tinha que ir na Disney um dia pór causa dos espaços que os caras criam, e eu e a Lili sempre adiamos isto porque o custo é quase o mesmo de ir para Paris.

Acordamos muito cedo e depois de um café com panquecas e uma garçonete muito gorda e muito simpática pegamos um táxi para o Epcot. Quer dizer, táxi é modo de dizer, pegamos uma limusine do hotel, pelo mesmo preço do táxi, dirigido por uma mulher que nos encheu de dicas e nos deu seu cartão de visita.

Eu confesso que não estava lá muito empolgado. De cara vimos o Innovation & Imagination símbolo do Epcot. Compramos os ingressos e começamos nossa jornada. Ficamos para lá e para cá, meio perdidos no início, mas depois de meia hora já estávamos localizados e começamos a entrar no clima. A arquitetura é muito interessante, e os caras são mesmo especialistas em espaços abertos. Andamos no Test Track uma pista de teste de carros onde se chega a 400 km/h, legal. Depois uma volta no trenzinho do Nemo, apesar de infantil, muitos efeitos de holografia e 3D, divertido e simples. Fomos para o Future World onde decolamos numa nave em missão para Marte, Misson: Space, e a Aline comeu uma coxa de Peru que a gente tinha visto a Adriana Lima comer no Lugar Incomum da GNT.

Visitamos os pavilhões dos países, mas gostamos mesmo do México (os caras reproduzem uma feira mexicana à noite, super bem feito tem até céu e luar) e do Marrocos com seus arcos mouriscos e uma feira onde a luz é filtrada pelas pérgulas. Lá pelas duas da tarde já tínhamos feito a volta no parque e andado nos brinquedos que a gente mais gostou. Daí veio a idéia de trocar de parque e conhecer o Magic Kingdom da Disney. Para trocar os ingressos dei de cara com uma guria brasileira de Porto Alegre chamada Adriana trabalhando num guichê.

No trem tipo Coester (lembram do Coester que não servia para Porto Alegre? Esse mesmo, é o que a Disney adotou como meio de transporte entre os parques.) atravessamos de um parque para o outro por cima de um pântano quase seco. Desembarcamos na estação da Disney e aí, bom, aí a Aline já estava com aquela cara de criança feliz e sem controle.
A primeira impressão do Magic Kingdom bate forte na gente. Para quem tem quarenta e poucos como eu, basta lembrar das tardes de sábado com o programa Disneylândia onde a apresentação era o castelo da Bela Adormecida. Ele está lá.
Eu sei que parece piegas, mas a Disney vai profundamente em sonhos infantis que a gente nem sabe que guardou, pelo menos foi assim com a gente e com várias pessoas que não são crianças com as quais conversei sobre isso. Enlouquecemos.
A arquitetura é sensacional, os detalhes impressionam, e para nós arquitetos (sorry para quem não é) cada prédio é um mundo. Visitamos tudo, compartilhamos tudo. Ajudamos o Buzz Lightyear a salvar o mundo no Ranger Spin. Nos divertimos com o Stitch no Great Scape que inclui um peido superfedorento do Stitch no escuro e um arroto na cara da gente, além de espirro gosmento e animatronics que parecem vivos. No Pirates of Carebean navegamos num bote a remos entre tesouros, caravelas e uma batalha naval entre galeões. Nos apavoramos com o show de holografias do Haunted Mansion (Mansão Assombrada), catacumbas, fantasmas, alucinações, gritos e almas penadas saindo de túmulos. Vimos a apavorante Splash Mountain, montanha russa que despenca sobre a água. Subimos na casa da família Robinson, Swiss family Tree House, e passeamos pelas salas suspensas por cordas e cipós a 30 metros de altura. Visitamos a casa do Mickey, da Minie, do Pateta, o barco do Pato Donald. Xícaras rodopiando, Dumbo voador, orelha de Mickey por todos os lados. Comemos cachorro quente sentados na calçada esperando a parada Spectromagic com luzes e todos os personagem juntos. E depois, o Wishes Nightime Spectacular , um show de fogos de artifício pontuado por frases de esperança que embalam os sonhos de qualquer criança ou adulto, em um instante mágico em que não pertencemos mais ao mundo real.

Voltamos para casa com outro taxista do Haiti que nos recebeu com um sorriso caribenho perguntando Funny day? It is amazing, no? (Dia divertido? Fantástico não?) E contou que adora o Brasil e que Ronaldo é o melhor jogador no mundo como . Chegamos de volta no hotel quase uma da manhã, e a Aline vestindo orelhas de Mickey, toda escabelada e de olhos esbugalhados com um sorriso do tamanho de um teclado de piano e adrenalina saindo até pelos cabelos, disparou uma célebre frase para a recepcionista do hotel enchendo o silêncio do hall: Hi. Do you know me? I am a mouse. (Oi, vc me conhece? Eu sou um rato.) Ao que a recepcionista sorridente respondeu Oh, you are so cute! (Oh, vc é tão fofa).
*** Esta postagem está fora de ordem cronológica – aconteceu em 09/05/2008 ***


*Where Dreams come True (Onde os Sonhos se Tornam Realidade) é o slogan da Disney Parks.


WII

Abril 30, 2008

Sábado acordamos sem pressa. Queríamos nos recuperar bem das gripes para não ter recaída e complicar nossa situação. Deixamos o tempo esquentar um pouco e resolvemos sair para comprar um Wii. Quando deixei Brasília, vendi meu Playstation 2 para uma menina, o valor da venda daria para comprar o Wii aqui em New York. Quando saímos na porta do edifício, nossa rua estava fechada, movimentada e cheia de novidades. Era NFL Draft Day.

O esquema é o seguinte: existe a liga profissional do Football (National Football League) e a liga universitária. A Universitária tem um time por universidade e centenas de jogadores. Todo ano, em maio, eles fazem o Draft. O clube da liga profissional que se saiu pior no ano anterior (último colocado) tem o direito de escolher um atleta universitário que esteja se formando e saindo da universidade, para ingressar em sua equipe. Assim sucessivamente, até o time campeão escolher. Depois começa a segunda rodada e assim por diante até todos os times terem escolhido entre os atletas universitários que estão se formando 10 jogadores por clube. Todo mundo acompanha. Os bares e as ruas se enchem de fãs, e o Radio City Music Hall é o local onde as convocações acontecem ao vivo, com todos os novos atletas esperando ansiosos nos corredores seu futuro ser decidido em meio aos gritos de torcedores uniformizados fazendo torcida na platéia. Em frente ao nosso prédio, em toda a rua, estava montado o Fan Center, com muitas atividades para fãs, fotos, brincadeiras, souvenires, jogadores dando autógrafos e até Cheer-leaders…suspiro…

Na hora do almoço acompanhamos a fila gigante para entrar no Music Hall, torcedores com camisas de todos os times se misturavam numa única fila, sem briga, sem empurra e sem rancor. Apenas piadas de uns para os outros e um clima cordial de adversários, mas não de inimigos. Também não tinha ninguém bebendo álcool…é proibido beber álcool na rua em New York. Ficamos imaginando se seria possível juntar torcedores do São Paulo, Palmeiras e Coríntians em um mesmo evento no Brasil, sentados misturados e entrando na mesma fila pela mesma porta.

A idéia do sábado foi basicamente esta. Ficamos curtindo ao redor da nossa casa os eventos do Draft Day, sem entender muita coisa e peqgando aos poucos a idéia geral, para somente na segunda-feira entender exatamente o que tinha acontecido no sábado. A estrutura que montaram na rua era descomunal, com um telão gigante que foi transportado por uma grua num caminhão de comprimento aumentado. Quando o evento acabou no início da noite, não levou uma hora para desarmarem o circo e desimpedirem a rua, eles são especialistas nisso, em fechar e abrir ruas em isntantes.
Durante a tarde fomos na Nintendo Word para comprar um Wii. Havia o lançamento oficial do Super Mario Kart com um campeonato aberto, barracas, telões, música e muita confusão. Mas depois de escolher todas as peças do meu Wii, o cara me informou que só podia vender em cartão de crédito. Que frustração, eu só tinha cash. Enquanto tomávamos um café, lembrei que a Toy’r'us (leia Toy Are Us), uma loja gigante de brinquedos na Times Square também vendia. Antes de irmos para lá, já no caída da tarde, acompanhamos a final do campeonato de Super Mario Kart, com o ator de Barrados no Baile sendo o convidado especial para dar mais glamour para a disputa.

Descemos até a Toy are Us e comprei o Wii. Era pesado. Fomos direto para casa e lá a Aline me surpreendeu, nocauteando um pobre coitado no jogo logo no primeiro round. Nunca tinha visto ela tão animada com um game. Jogamos até cansar, e tive que tomar outro banho depois de tanto que suei jogando.

Combinamos de ir num Outlet que fica perto de NY no domingo, a previsão do tempo dizia que iria chover e precisávamos de um lugar legal e
quente para passar o dia.

Sobre gripe, médicos e amígdalas inflamadas

Abril 30, 2008

Depois da aventura em Chinatown comecei a sentir uma coceirinha na garganta que se trasnformou numa tosse durante o dia de segunda-feira e depois em febre e mal estar. Pronto. Peguei minha primeira gripe em New York, ou flu, como preferir. Só pode ter sido em Chinatown. todo mundo sabe que os chineses, além de fazerem pessoas, roupas e outras coisas, são excelentes fabricantes de gripes. Também, pudera, se aqui já é uma confusão, imagine lá. Na terça estava acabado. Febre, dor no corpo, congestionado, dor de garganta. Comprei um Tylenol Severe Sympthoms para gripe, mas que a bula advertia que não dava sono (No Drowsny). Dois a cada quatro horas. Melhorei um pouco, mas quarta, sem comentários. Me destruí com uma dor de cabeça inexplicável, que só cedeu depois de coquetéis molotof de Tylenol Severe com Neosaldina brazuca.
Foi o dia em que a Lili acordou com a cara com uma bola de tênis no lugar de amígdala. Com feber e dor de garganta, as amígdalas dela capturaram o vírus na passagem. Como ela tinha muita dor, começamos com Amoxil que trouxemos do Brasil e comprei um Tylenol Extra Strenght – Pain Killer…assustador, não é? A dor passou, ou diminuiu, mas no dia seguinte descobrimos que o Amoxil estava vencido e ela precisou parar com a medicação. Nos preocupamos muito, porque ela estava muito inchada, doía bastante e a febre aumentou. Na farmácia que vende até remédios ninguém quis nem olhar para minha cara sem uma receita, todos repetiam a mesma coisa: She need to see a doctor. Sem ter para onde correr, foi aí que chamamos o médico…acionamos o seguro de viagem dela na sexta, e quando me falaram da possibilidade de mandar o médico lá em casa, nem quis saber de mais nada, inventei uma história de que era muito difícil para nós nos deslocarmos e deu certo. As cinco e meia da tarde chegou lá um coreano muito simpático chamado Dr Fong. A Aline estava melhor porque apelamos para um Voltaren 50mg (que também veio do Brasil) e isso ajudou a baixar a infecção. Eu havia descoberto na internet que amigdalite pode ser viral ou bacteriana: na viral, use Diclofenaco e na bacteriana Amoxilina. Se n]ap der certo, morra por sua conta e risco. O Dr Phong nos deu uma receita de Amoxilina, 30 cápsulas, os remédios aqui são super-ultra-hiper controlados e somente com receita oficial, com papel especial é que se consegue comprar antibióticos e outras drogas mais fortes. Quando o médico receita alguma coisa, sempre vendem para a gente o genérico, se ele quiser uma marca específica tem que descrever num campo da receita. Isto evita que exista esquemas entre médicos e laboratóriosreceitando sob encomenda. Os remédios também são aviados, não existem prontos, exceto nos casos em que o médico define qual o nome do remédio, ao invés da droga, mas é isto exatamente que faz com que o governo possa controlar os lobbies dos laboratórios. À noite era só alegria. Comemoramos jantando em casa, os dois saudáveis e medicados, tiramos uma foto para lembrar sempre de que após a tempestade vem o tempo bom, e que depois da gripe, sempre vem a saúde de novo. Chinatown, nunca mais.


Chinatown

Abril 30, 2008
Domingo foi dia de Chinatown. Saímos de metrô e descemos no coração do bairro étnico oriental mais famoso do mundo. Letreiros em chinês nos receberam, e a confusão, barulho e mistura de cheiros que havíamos sentido semanas atrás quando desembarcamos ali perto por engano era a mesma. A idéia era visistar alguns pontos mais clássicos e dar uma volta pelas redondezas para sentir o clima das diferenças. A primeira parada deveria ser o templo budista Mahayana Buddihist Temple, mas o mapa que levamos estava um pouco confuso e acabamos perdendo a noção do lugar. Depois de muitas voltas acabamos descobrindo que o templo era exatamente onde nós desembarcamos…amadorismo.

Apesar do vermelho e dourado predominantes e da pouca luz, internamente um ambiente muito descontraído que contrastava com a austeridade dos leões dourados contra o fundo vermelho da fachada. Um Buda gigantesco tomava o centro das atenções, rodeado por flores e oferendas de frutas, o que nos fez pensar que no final das contas todas as religiões são a mesma. Vimos orientais chegando e fazendo reverências ao Buda, três flexões com a cabeça, três bastões de incenso acesos. Pessoas ajoelhadas dando graças ou pedindo, e quando pedi para tirar fotos o encarregado respondeu sorridente com um No problem com sotaque oriental.

Antes de chegarmos de volta ao templo, nos perdemos pelas ruelas intricandas de Chinatown. Lojas com produtos na rua e muitas, muitas pessoas se acotovelando na manhã gelada de New York. Toda a sinalização é escrita em chinês, mas em muitos locais é acompanhada em inglês. Os cheiros de incenso, azeite, fritura e perfume se misturam porque uma loja pode vender roupas, peixe cru, peixe vivo e remédios. Patos assados ou um bicho que não sabemos o que é ficam dependurados nas vitrines, aparentemente uma especiaria, mas longe da idéia de algo saboroso para um pobre ocidental criado em Porto Alegre. A gordura escorre pelo vidro.

Descemos até um templo cristão, a Church of the Transfiguration com seu teto de cobre esverdeado, incrustrada em pleno bairro budista. Entramos cuidadosamente, desconfiados. Lá dentro, em meio a um cheiro ardente de incenso oriental um padre pregava em chinês para uma dúzia de chineses cristãos. Uma música oriental em instrumentos de corda dava o clima de filme trash, e fotografias de um monge enchiam as paredes ao redor de sua própria imagem em tamanho natural. Muito estranho. Saímos dali em silêncio para entrar numa loja de especiarias em comida. Estômago de peixe seco inflado como um balão era a coisa mais conhecida que encontramos. No mais havia barbatanas, rabos e gosmas, bolas, caroços, melecas, geléias pretas e roxas em vidros repletos de líquidos, que mais pareciam um museu de ciências de colégio do que uma loja de gourmet. Diferanças totalmente culturais.

Depois entramos em algumas lojas de presentes, compramos umas coisinhas para lembrar de tudo isso e na saideira demos de cara com uma peixaria que vendia peixe morto e peixe vivo, assim como lagosta, camarão, ostras e outras conchinhas andando em aquários azulados com um calendário da miss universo como decoração de fundo. Mas o mais impressionante foi uma coisa meio bege, gor de gordura e forma de feijão, do tamanho de um mamão papaya, enrrolada em um saco plástico ao lado dos peixes mortos, com linhas vermelhas e pretas, que chamou nossa atenção. Ficamos os dois em silêncio por uns instantes olhando aquilo enquanto parecia que Chinatown havia parado. Não dava para saber o que era de tão estranho. Passados alguns segundo nos viramos e voltamos a caminhar, ainda num silêncio contemplativo, que só foi quebrado quando eu consegui discursar filosoficamente propondo que mantivéssemos o silêncio por mais alguns minutos em respeito àquela coisa estranha que podia ser qualquer coisa.
De volta para casa comecei a sentir uma coceirinha na gaganta, e a gripe que se seguiu segunda-feira para mim e na quarta para a Lili só pode ter sido resultado daquela loucura urbana que é Chinatown, superpopulosa e frenética mistura de todas as coisas num espaço disputado, caótico que sobrecarrega os sentidos, mas que vale a pena ser visitado pelo menos uma vez na vida.