Quando Frank Lloyd Wright chegou em Chicago em 1817 vindo do interior da Pennsylvania, carregava somente sete dólares no bolso e nenhum lugar para morar, mas queria fazer arquitetura. Tornou-se um arquiteto respeitado e reconhecido, mas não um superstar. Aos sessenta e sete anos estava seguro de que Fallingwater seria a obra que o preservaria para sempre, tão seguro que quando Kauffman começou a questionar os planos da casa, não hesitou em enviar uma carta onde iniciava dizendo: “Você parece esquecer tudo o que eu disse sobre construir uma casa extraordinária, sob extraordinárias circunstâncias, eu sei o que estamos para fazer e me recuso a iniciar até que você possa ver o que eu vejo”. Kauffman aceitou a aposta e bancou a casa que iria entrar para a história, eleita pela AIA como a Casa Mais Importante da História da Arquitetura.Na semana em que completei 45 anos de idade, conheci Fallingwater.Sexta-feira, 13 de junho, início do Scary Weekend para os americanos, mas não para nós. As 9p.m. pegamos um avião de New York para Washington DC. Desembarcamos e alugamos um carro no próprio aeroporto, fomos para o hotel reservado, pedimos uma pizza pelo telefone porque o service room estava fechado, comemos e dormimos.As 4:30a.m. acordamos e saímos de carro em direção a oeste, a partir do Distrito de Columbia, passando por Maryland e mudando de direção para Norte na Pennsylvania, através de uma floresta chamada Ohiopyle. Subimos até 2670 metros acima do nível do mar por uma estrada asfaltada e estreita, sinuosa e deserta, corcoveando entre as árvores, para um lugar cortado por um rio bem estreito, conhecido por Bear Run que deságua sobre pedras acinzentadas formando uma cascata ao lado da casa mais famosa do mundo. As 8:36a.m. de 14 de junho de 2008, entramos à esquerda em um acesso solitário, marcado por uma placa de pedra onde se lia em letras escavadas, Fallingwater.
Os guias são atenciosos, mas não focam só na arquitetura. Senhoras e senhores de idade avançada que contam como era a vida na casa, doada pelo filho de Kaufmann para o departamento de conservação da Pennsylvania antes de morrer de modo a preservar o que ele considerava ser a melhor casa do mundo. Depois de Fallingwater a carreira tardia de Wright decolou. Capa da Time Magazine, tema de livros que pesquisaram as Prairie Houses e descobriram o arquiteto que ele sempre foi, inúmeros artigos em jornais norte-americanos. Daí seguiu-se o convite para o Guggenheim em New York, outra obra prima que ele não viu terminada quando morreu aos noventa e dois anos.
Levei dias para me atrever a escrever este post, é muito difícil descrever o que sentimos lá. A pressão de estar em Fallingwater, os detalhes, o conjunto, as esculturas, os móveis, o piso e o teto, as janelas e escadas, os planos e vãos, a luz, o ronronar da cascata e o verde sufocante das árvores emolduradas pelos vãos das janelas não poderiam ser descritas nem em mil imagens, que dirá em mil palavras. Tudo que vimos ano após ano sobre Fallingwater nos livros é melhor, mais adequado, mais profundo e mais impactante ao vivo.
A casa realmente participa da floresta e a floresta é parte da casa, mas cada um em seu espaço, interno e externo. Os espaços não se invadem, mas se comunicam, a casa atesta que é uma construção humana e a floresta permanece natural. Exatamente como está escrito em qualquer livro, o Unitarismo de Wright onde o detalhe e o todo são um só, salta aos olhos. Arquitetura é design. Arquitetura é espaço. Arquitetura é conceito.
A sala de estar é fascinante, com uma grande lareira e sofás baixos longos e aparentemente confortáveis (não se pode sentar ou tocar nos móveis, obras de arte e objetos de design), me imaginei com meus amigos trocando conversa noite adentro embalados ao gosto do vinho e ao som da cascata. Como os Kauffman devem ter sido felizes naquele lugar cheio de energia positiva! A cozinha é pequena e acolhedora, com detalhes de janelas de canto sem caixilho, acabamentos perfeitos de vidro contra vidro criando arestas muito finas, do outro lado, o vidro entra pelas paredes de pedra sem baguetes.
Os dormitórios têm uma escala intimista, permitem que cada um desenvolva sua individualidade, mas ao mesmo tempo se integram por passagens, varandas e visuais. A casa é coletiva, essa é a percepção. É uma casa para conviver, uma casa de descanso, de restabelecer o equilíbrio, ela mesma se equilibra com o bosque. Os espaços coletivos se sobrepõem e são convidativos. E quando o momento é pessoal, a arquitetura entra em ação e os locais de descanso enquadram as melhores visuais da floresta e possibilitam a contemplação.
Uma escada leva para lugar algum, mas fica perfeita na composição. Uma escada se desenvolve na escuridão e após um corredor com pouca luz, o dormitório do casal resplandece na luz limpa da altitude. Todos os efeitos são calculados.




Pelo lado de fora os planos se multiplicam, e perde-se a noção de onde interceptam o que. A casa invade a floresta e se deixa emoldurar. O som da cascata continua, mas por incrível que pareça, o som contínuo e uniforme acalma.O rio corre devagar neste platô e escorre por debaixo das varandas e sob a ponte que dá acesso à casa. As vigas desviam seu curso para perpetuar as árvores, as pedras se empilham para criar colunas.




E na escala global Fallingwater se encaixa de uma maneira na paisagem que ela parece grande e pequena ao mesmo tempo. Dependendo do ângulo de onde se está percebe-se uma dimensão diferente. Wright sabia o que estava fazendo, e o local onde ele costumava sentar-se com o proprietário para explicar o que estava acontecendo, transformou-se no miradouro oficial da casa, de onde se tem a vista mais famosa de todas, onde estamos sentados na foto, com o sorriso do tamanho de Ohiopyle.
Wright e a Casa da Cascata são legendários para nós arquitetos. Crescemos e nos formamos admirando suas obras e não entendendo sua vida pessoal turbulenta. A visita a Fallingwater foi uma emocionante viagem que nos tirou do chão durante quatro deliciosas horas em que nos conectamos com cada pedra. No ano em que completei 45 anos de idade, fiquei frente a frente com o mito da cascata, e descobri que os arquitetos tem ainda muito o que aprender.










Julho 4, 2008 às 2:34 am
Bixo, li e reli teu texto várias vezes para curtir, de forma virtual e imaginária, este super passeio!!! Como vc sabe bem, este passeio ocupa um lugar de destaque nas minhas grandes preferências. De fato, andar, olhar e tocar, até mesmo as pedras, para quem gosta do cara, é uma experiência fantástica. Nem seria necessário uma data tão especial para isto!! Mas já que foi, certamente não existiria melhor presente!! Espero que tudo esteja super bem com vcs!! Neste rabo de foguete e no embalo da energia positiva dos teus textos, fiz tb um piloto de blog (bregatto.blogspot.com)!! Passa lá!! Super abraço e feliz aniversário (revendo algumas fotos antigas, achei um aniversário teu, já perdido no tempo, onde estamos todos, meio bêbados, em volta de uma mesa de sinuca na tua casa!!!)!! Sem dúvidas, mil vezes Falligwater!! Beijos e abraços!!!
Julho 4, 2008 às 3:37 pm
Marcelo,
parabéns!!!
emocionante cara! Só isso que consigo dizer após ler e ver tua descriçao da obra prima do nosso mestre das pradarias…
Sem mais,
abraço,
luciano
Julho 4, 2008 às 3:54 pm
Sugestoes sobre o roteiro arquitetural em NY…
Já foram da loja da PRADA? (Prince street com a Broadway) projeto do OMA Rem Koolhaas Seria bom conhecer..
abraço,
luciano
Julho 7, 2008 às 4:48 pm
tu está a mais de mês em ny mas tu é brasileiro. conta pra nós aí seven, conseguiu roubar alguma coisa da falling? um enfeite? uma tijoleta? uma almofada? nada???
ah, antes de ir na loja da prada que o lu recomendou, deixe o visa em casa.
abraço!!
g