Diego chorou. Cielo também.

Agosto 17, 2008

Diego Hypolito (é assim que se escreve?) e Cesar Cielo choraram nas Olimpíadas. Mesmo que eu não quisesse saber nada dessa competição, não seria possível. Vivemos todos ao redor desse tema ultimamente. Ao mesmo tempo em que torço, tenho a certeza de que não temos nenhuma chance. É mais uma dessas coisas estranhas que nós brasileiros fazemos, fingir que não está acontecendo. Fingimos que estamos preparados para competir com países que têm políticas de formação de atletas, problemas sociais em pequena escala, desigualdade social muito pequena, competição em nível de escolas e universidades formando atletas e despontando talentos desde cedo. Fingimos que um atleta que saiu de uma favela, que teve educação inadequada, que não teve alimentação equilibrada nos primeiros dez anos de vida, que teve ou tem uma estrutura familiar inconsistente pode competir em condições de igualdade. Estamos acostumados com o futebol, onde o talento individual supera qualquer barreira, onde qualquer fundo de quintal é uma quadra, mas nos esportes olímpicos clássicos é preciso muito mais. Por isso acho que o choro de Cielo e de Diego eram o mesmo. Diego chorou a chance perdida, o tempo perdido, as condições inadequadas, a insuficiência de patrocínio, o descaso dos gabinetes, o desamparo psicológico. Cielo chorou o afastamento da família para ter uma chance, abandonou tudo e todos, foi morar longe com gente diferente, comida diferente, vida diferente. No fundo, os dois choravam o mesmo, o desamparo do país onde nasceram. Na minha opinião, medalhistas ou não, nossos atletas valem ouro. Conseguir sobreviver de esporte em um país onde falta tanta coisa é mesmo de orgulhar qualquer um.


De volta ao Brasil.

Agosto 15, 2008

Voltamos.

Depois de cinco meses em Nova Iorque (que para mim devia ser escrito New York para não cair no mesmo erro de Pequim/Beijing) estamos de volta ao Brasil. Pensei em fechar o blog porque achei que ninguém ia querer continuar lendo, mas voltei atrás. Vou deixar ele no ar como se fosse parte de minha memória e ao mesmo tempo meu terapeuta. A chegada foi complicada, nos sentimos como aqueles pinguins do filme de animação Madagascar, lembra? Eles queriam muito ir para a Antártida e quando chegaram lá ficaram se olhando e um deles falou: Vamos voltar?

Estou que nem os pinguins..Mas não dá para voltar, pPelo menos por enquanto. Então vou descansando em férias e vendo as Olimpíadas, dormindo tarde e acordando tarde também e fazendo minha terapia diária nesse blog. Nova Iorque é legal, mas o Brasil é aqui!


Dicas para viajantes novatos em New York – Turismo em New York

Julho 17, 2008

Nós fomos turistas novatos em New York e aprendemos umas coisinhas que queremos compartilhar.

- Ao chegar em New York, compre um Tour pela cidade logo no primeiro dia, o passe vale 24 horas e você pode usar no dia seguinte se chegar à tarde. Dê uma volta completa, marque no mapa (que eles vão dar para você) os lugares que você quer conhecer. Vai ser fácil se localizar em Manhattan depois dessa volta porque você vai entender a estrutura da cidade. Não tem erro, os ônibus vermelhos de dois andares passam na Times Square e no Rockfeller Center, todo mundo sabe ensinar a chegar lá, compre os tíquetes na hora (US$ 38).

- Estátua da Liberdade, compre o ticket pela internet e vá em dia de semana. O passeio vai tomar quase um dia inteiro devido às filas e inspeções de segurança. Se você não é muito curioso, não vale a pena, não tem nada para ver lá, não é permitido subir na estátua e você pode tirar fotos dela sem ir até a ilha a partir do Battery Park se tiver um zoom razoável na sua câmera;

 

- Use o Subway (Metrô). Uptown e Downtown não são lugares, são Direções. Dowtown é em direção ao Queens, Uptown é em direção ao Bronx. Sabendo isso você sempre vai pegar o metrô para o lado certo.  Com uma viagem de 10 minutos de metrô você vence a distância de 2o quadras, e acredite, isso vai ser importante quando você começar a caminhar em MAnhattan. Vale a pena usar o Subway para se deslocar para Baterry Park, World Trade Center (Ground Zero), Trinity Church, Wall Street, Brooklyn Bridge (todos na ponta da ilha, no Financial District). Também use para o outro lado: American Museum of Natural History (Museu de História Natural), Dakota Building (onde Lennon morava), Metropolitan Museum, Central Park, Guggenheim  e atrações no Harlem. Não é preciso usar para as atrações de Midtown (se você estiver em um hotel por lá, é claro): Times Square, Teatros da Broadway, Chrysler Building, Macy´s, Victoria Secret´s, Empire State, Rockefeller Center, Zona de grandes lojas da Quinta Avenida, Apple Store.

 - New York é considerada a cidade mais segura do mundo (pelos americanos). Em geral, todas as áreas de Manhattan são seguras, carregue sua câmera sem medo pelas zonas turísticas e fique à vontade para fotografar tudo. Mesmo à noite a cidade é movimentada e se você se mantiver nos circuitos mais povoados, provavelmente não vai ter nenhum problema. Evite o El Barrio, algumas zonas distantes do Queens e do The Bronx durante o dia e sempre à noite. Seguro mesmo é Manhattan.

- Se você gosta de museus, organize bem sua viagem. O Metropolitan Museum (Met) é imperdível para quem curte arte, mas é gigante e você gasta mais de um dia para ver tudo. Escolha no site da internet as alas que quer conhecer e descarte as outras. Nós sugerimos os Impressionaistas, Arte Clássica, Arte Pop, Arte Egípcia e a seção de Armas e Armaduras. Depois de 5 horas de museu a visita fica muito cansativa e é difícil lembrar de tudo. Visite o Guggenheim antes do Metropolitan, no mesmo dia, são próximos. O Guggenheim é pequeno e divertido, se a exposição em andamento não lhe interessar, curta somente o grande hall que é de graça. No Met, às sextas e sábados suba até o roof (telhado) e aproveire as visuais do Central Park tomando um drinque (cerca de $12). O Museu de História Natural é legal se você curtir animais empalhados, pedras e espaço sideral. Em geral as crianças curtem mais. O Whitney Museum visite somente se você tem grande interesse em Arte Pop (Warhol e etc), o acervo permanente é pequeno. O prédio é um exemplar raro de Brutalismo de Breuer. The Museum of Modern Art – MOMA é muito bom! O espaço é excelente e as peças são edificantes. Sexta à noite é gratuito, você e a torcida do Yankees vão estar lá. O prédio basicamente é do Phillip Johnson (projetos e adições entre 1951 e 1964) com novas alas do Cesar Pelli em 1984.

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- Vistas aéreas de Manhattan pode ser conseguidas no Empire State (visita obrigatória) ou no Rockfeller Center (Top of the Rock). Não há como escapar das filas de ingressos e inspeção de segurança do Empire State, vá com paciência, você vai gastar duas horas lá. Vale a pena pelo glamour, pela sensação de ver o contador do elevador chegar a 102 e pelas visuais.

 

-Não perca tempo almoçando. Compre sanduíches, saladas ou pizzas nas Deli e restaurantes espalhados por Manhattan, sente numa praça ou numa mureta e fique comendo e curtindo a cidade. Lugares ótimos para isto são o Rockefeller Plaza (no Rockfeller Center), o Bryant Park, Na 6th Avenue entre a west 50th e 51st e outros largos.

- Peças da Broadway, não deixe de ir, sério. Parece bobagem, mas é uma das melhores coisas de New York, disparado. Compre ingressos no TKTS na rua west 46th para o mesmo dia com desconto de 50%. As filas são grandes e desorganizadas, mas andam rápido. O ingresso com 50% de desconto sai por cerca de $70. Os shows começam ás 20p.m. .Se você só puder ir numa peça, vá no Phantom of the Opera, é uma superprodução que tem tudo que a Broadway pode oferecer: figurinos, cenários, música, efeitos especiais em um teatro espetacular. Se você já viu o Fantasma, ou puder ir em duas, vá o Mama-Mia! Peça dinheiro emprestado ou fique sem comer um dia e vá curtir as músicas do Abba em ritmos empolgantes que vão fazer você ficar de alto astral cada vez que lembrar que foi na peça.

 

New York tem tudo para oferecer, e algumas vezes pode ser estressante ter a sensação de que se está deixando algo para trás, mas pense assim, sempre há outra chance de voltar para cá um dia.


Millenium Park – Chicago, Gehry e Kapoor

Julho 8, 2008

Chicago está localizada na beira do Lago Michigan e é cortada pelo Rio Chicago. Em 1871 a cidade pegou fogo, literalmente. Isso possibilitou que um novo tipo de arquitetura surgisse por lá a partir de 1882, os arranha-céus muito altos para os padrões da arquitetura residencial do período (média de 14 andares) . Mas isso é outra história. Visitamos Chicago e conhecemos o Millenium Park. Um espaço central na cidade que atrai centenas de pessoas nos finais de semana. Lá encontramos o Jay Pritzker Pavillion de Frank Ghery, uma belíssima obra desconstrutivista com o design estrutural da Skidmore Owings & Merrill – SOM. A estrutura é muito bonita e extremamente complexa. Em frente ao pavilhão o Great Lawn (grande gramado) é coberto por barras de aço que criam uma malha e permite uma escala humana. Nestas barras ficam suspensas as caixas de som, e a acústica é perfeita. Pudemos constatar isto porque tivemos a sorte de ver uma apresentação da Filarmônica de Chicago ao entardecer, centenas de pessoas no gramado e nas cadeiras em frente ao pavilhão lotadas, um espetáculo de arquitetura e música, emoldurado pelo clássico skyline de Chicago.


Também de Frank Ghery há a BP Bridge, em forma de serpente, toda em placas metálicas e piso em madeira, conecta o Millenium ao Daley Bicentenial Plaza. Ótima de ver ao vivo, péssima para fotografar devido a suas dimensões.No mesmo parque o Cloud Gate (nuvem-portão), uma escultura em forma de feijão totalmente cromada, com cerca de 20 metros de comprimento por 10 de altura, do artista plástico indiano-inglês Anish Kapoor. Somos fãs dele, o cara é demais, tivemos oportunidade de intergair com seu trabalho ao vivo pela primeria vez em uma exposição em Brasília, depois em NY e agora em Chicago. A obra é muito legal e causa diversas sensações nos visitantes. Debaixo do Cloud Gate perde-se a noção do espaço, e em especial as crianças adoram correr vendo seus reflexos distorcidos.


Mais adiante The Crown Foutain, dois grandes blocos feitos de tijolos de vidro recheados com painéis eletrônicos mostram imagens de rostos de habitantes de Chicago em movimento (cerca de 1000 voluntários). Periodicamente os rostos “esguicham” água levemente aquecida sobre as pessoas (na maioria crianças), ou uma cascata despenca do topo dos grandes blocos de 15 metros de altura.

Na sequência, jardins muito bem projetados em desenho contemporâneo (que estavam fechados e só vimos por fora), a extensão do Museu de Arte, o McDonald’s Cycling Center (um bicicletário do McDonald’s), uma ponte em construção ligando o museu e o parque (muito legal!), e muita arquitetura ao redor. O Millenium Park é aqui!

FUTILIDADES
Preços de coisas, anote aí para quando você vier para Nova Iorque. O que você pode comprar com:
Us$ 100 – Vestidinho super-legal para a balada na Banana Republic (5th Ave com a 50th)
Us$ 50 – Camisa Oscar de La Renta no One Day Sale da Macy´s (34th com Broadway)
Us$ 20 – Vestido-camisa na Urban Outfiters ou na HM – vai ser o hit do verão no Brasil (5th Ave com a 42nd)
US$ 10 – Camiseta na Mistic estilo Ed Hardy (Broadway perto da Prince)
US$ 5 – Calcinha Victoria Secret para abalar (34th com a 6th ave)
US$ 1 – Gorjeta na noite, na sua próxima rodada de Martinis usando suas roupinhas novas e sua calcinha arrasadora.

Fallingwater

Julho 1, 2008
Quando Frank Lloyd Wright chegou em Chicago em 1817 vindo do interior da Pennsylvania, carregava somente sete dólares no bolso e nenhum lugar para morar, mas queria fazer arquitetura. Tornou-se um arquiteto respeitado e reconhecido, mas não um superstar. Aos sessenta e sete anos estava seguro de que Fallingwater seria a obra que o preservaria para sempre, tão seguro que quando Kauffman começou a questionar os planos da casa, não hesitou em enviar uma carta onde iniciava dizendo: “Você parece esquecer tudo o que eu disse sobre construir uma casa extraordinária, sob extraordinárias circunstâncias, eu sei o que estamos para fazer e me recuso a iniciar até que você possa ver o que eu vejo”. Kauffman aceitou a aposta e bancou a casa que iria entrar para a história, eleita pela AIA como a Casa Mais Importante da História da Arquitetura.

Na semana em que completei 45 anos de idade, conheci Fallingwater.Sexta-feira, 13 de junho, início do Scary Weekend para os americanos, mas não para nós. As 9p.m. pegamos um avião de New York para Washington DC. Desembarcamos e alugamos um carro no próprio aeroporto, fomos para o hotel reservado, pedimos uma pizza pelo telefone porque o service room estava fechado, comemos e dormimos.As 4:30a.m. acordamos e saímos de carro em direção a oeste, a partir do Distrito de Columbia, passando por Maryland e mudando de direção para Norte na Pennsylvania, através de uma floresta chamada Ohiopyle. Subimos até 2670 metros acima do nível do mar por uma estrada asfaltada e estreita, sinuosa e deserta, corcoveando entre as árvores, para um lugar cortado por um rio bem estreito, conhecido por Bear Run que deságua sobre pedras acinzentadas formando uma cascata ao lado da casa mais famosa do mundo. As 8:36a.m. de 14 de junho de 2008, entramos à esquerda em um acesso solitário, marcado por uma placa de pedra onde se lia em letras escavadas, Fallingwater.

 

Existem três tipos de tours para visitar a Casa da Cascata. O brunch tour oferece um café da manhã no terraço principal uma vez por dia as 9 da manhã de domingos, e não conseguimos comprar porque está vendido até o final do ano. O Regular Tour permite visita somente ao master bedroom e à sala principal, bem como o exterior, mas não permite fotografias internas. O In-depth tour precisa ser agendado com antecedência, aceita até oito pessoas, ocorre duas vezes por dia as 9a.m. e 4:30p.m e permite visitar e fotografar todos os cômodos da casa, inclusive o porão, cozinha, casa de hóspedes e banheiros. Por isto era importante chegar antes das 9a.m., compramos o tour um mês antes por telefone quando uma senhora muito simpática e pacienciosa nos encaixou na lista ao saber que éramos arquitetos brasileiros. Era nossa única cartada. Tudo correu bem, e ainda chegamos a tempo de tomar um café no centro de visitantes (de onde propositalmente não se consegue avistar a casa) e comer torta caseira de strawberry recém saída do forno.

Os guias são atenciosos, mas não focam só na arquitetura. Senhoras e senhores de idade avançada que contam como era a vida na casa, doada pelo filho de Kaufmann para o departamento de conservação da Pennsylvania antes de morrer de modo a preservar o que ele considerava ser a melhor casa do mundo. Depois de Fallingwater a carreira tardia de Wright decolou. Capa da Time Magazine, tema de livros que pesquisaram as Prairie Houses e descobriram o arquiteto que ele sempre foi, inúmeros artigos em jornais norte-americanos. Daí seguiu-se o convite para o Guggenheim em New York, outra obra prima que ele não viu terminada quando morreu aos noventa e dois anos.

Levei dias para me atrever a escrever este post, é muito difícil descrever o que sentimos lá. A pressão de estar em Fallingwater, os detalhes, o conjunto, as esculturas, os móveis, o piso e o teto, as janelas e escadas, os planos e vãos, a luz, o ronronar da cascata e o verde sufocante das árvores emolduradas pelos vãos das janelas não poderiam ser descritas nem em mil imagens, que dirá em mil palavras. Tudo que vimos ano após ano sobre Fallingwater nos livros é melhor, mais adequado, mais profundo e mais impactante ao vivo.

A casa realmente participa da floresta e a floresta é parte da casa, mas cada um em seu espaço, interno e externo. Os espaços não se invadem, mas se comunicam, a casa atesta que é uma construção humana e a floresta permanece natural. Exatamente como está escrito em qualquer livro, o Unitarismo de Wright onde o detalhe e o todo são um só, salta aos olhos. Arquitetura é design. Arquitetura é espaço. Arquitetura é conceito.

A sala de estar é fascinante, com uma grande lareira e sofás baixos longos e aparentemente confortáveis (não se pode sentar ou tocar nos móveis, obras de arte e objetos de design), me imaginei com meus amigos trocando conversa noite adentro embalados ao gosto do vinho e ao som da cascata. Como os Kauffman devem ter sido felizes naquele lugar cheio de energia positiva! A cozinha é pequena e acolhedora, com detalhes de janelas de canto sem caixilho, acabamentos perfeitos de vidro contra vidro criando arestas muito finas, do outro lado, o vidro entra pelas paredes de pedra sem baguetes.



Os dormitórios têm uma escala intimista, permitem que cada um desenvolva sua individualidade, mas ao mesmo tempo se integram por passagens, varandas e visuais. A casa é coletiva, essa é a percepção. É uma casa para conviver, uma casa de descanso, de restabelecer o equilíbrio, ela mesma se equilibra com o bosque. Os espaços coletivos se sobrepõem e são convidativos. E quando o momento é pessoal, a arquitetura entra em ação e os locais de descanso enquadram as melhores visuais da floresta e possibilitam a contemplação.

Uma escada leva para lugar algum, mas fica perfeita na composição. Uma escada se desenvolve na escuridão e após um corredor com pouca luz, o dormitório do casal resplandece na luz limpa da altitude. Todos os efeitos são calculados.

Pelo lado de fora os planos se multiplicam, e perde-se a noção de onde interceptam o que. A casa invade a floresta e se deixa emoldurar. O som da cascata continua, mas por incrível que pareça, o som contínuo e uniforme acalma.O rio corre devagar neste platô e escorre por debaixo das varandas e sob a ponte que dá acesso à casa. As vigas desviam seu curso para perpetuar as árvores, as pedras se empilham para criar colunas.

E na escala global Fallingwater se encaixa de uma maneira na paisagem que ela parece grande e pequena ao mesmo tempo. Dependendo do ângulo de onde se está percebe-se uma dimensão diferente. Wright sabia o que estava fazendo, e o local onde ele costumava sentar-se com o proprietário para explicar o que estava acontecendo, transformou-se no miradouro oficial da casa, de onde se tem a vista mais famosa de todas, onde estamos sentados na foto, com o sorriso do tamanho de Ohiopyle.

Wright e a Casa da Cascata são legendários para nós arquitetos. Crescemos e nos formamos admirando suas obras e não entendendo sua vida pessoal turbulenta. A visita a Fallingwater foi uma emocionante viagem que nos tirou do chão durante quatro deliciosas horas em que nos conectamos com cada pedra. No ano em que completei 45 anos de idade, fiquei frente a frente com o mito da cascata, e descobri que os arquitetos tem ainda muito o que aprender.

 


Gay Pride Parade – New York

Junho 30, 2008

Domingo, 29 de junho, saímos de metrô para ver umas obras do Richard Meier in New York. Pegamos a linha 1 e lá pelas tantas comecei a achar que a quantidade de gays era maior do que o normal no carro em que estávamos. Principalmente duas mulheres “se pegando” na porta, e outras duas sentadas uma no colo da outra, com shortinho bem curtinho e meias coloridas. Mas tivemos certeza de que tinha algo acontecendo quando uns caras entraram enrrolados na bandeira do arco irís. Fiz sinal para a Aline (vamos seguir eles) e ela topou na hora, já com aquela cara de menino que ela faz quando tem algo legal acontecendo. Quando todo mundo desceu, descemos juntos. Pronto. A confusão estava formada. Sob uma chuva muito forte a polícia organizava a saída caótica do metrô na estação Christopher-Sheridan. Demos de cara com a Gay & Lesbian Pride Parade em plena rua Christopher, a rua mais gay do mundo, segundo eles dizem. Lá se concentram lojas de artigos eróticos e especializadas em público gay. O nome verdadeiro da marcha é New York´s City Lesbian Gay Bisexual Transgender Pride March 2008. Muita gente na rua, música alta e pessoas acompanhando nas escadas de incêndio e janelas do Village. Seguimos a parada por umas 3 horas. Mais de 300 associações, grupos ou entidades desfilam durante o dia todo divcididos por seções (esportistas, fetichistas, políticos, países, religiosos…), e as 2p.m. é o Momento of the Silence (momento do silêncio), quando todas as igrejas no percurso da parada que vai da 5th avenue até a Christopher street tocam os sinos em reconhecimento aos que ficaram para trás na corrida contra a AIDS e as barreiras do preconceito. Quando passou a delegação do Brasil, sob uma batucada meio manca, a galera enlouqueceu. Pegamos muita chuva, comemos um risoto às 5 da tarde na Risoteria da Bleecker Street e voltamos para casa. A multidão de Gays e Lésbicas ia de um lado para o outro, agitados, animados, em grupos ou sozinhos, curtindo o dia mais feliz da comunidade que termina numa grande festa com música, dança, fogos de artifício e muitos romances na beira do Hudson River tarde da noite de domingo. Para falar a verdade foi uma experiência diferente, nunca vi tanta bunda de homem junto na minha vida. Uma verdadeira Lou-cu-ra.

FUTILIDADES – Aline Figueiró, Aos pés de New York
Em Manhattan se caminha muito porque o metrô corta a região de norte a sul e as transversais têm que ser feitas a pé. Por isso as mulheres usam muito salto baixo, quase não se vê salto alto. Mesmo na noite, o salto alto dá lugar para as rasteirinhas. As sapatilhas são o must, e as sandálias do tipo gladiador a super-ultra-hiper moda do verão, é o que há! com vestidinho franzido na cintura bem curtinho. Flip-flops também são muito usadas. Traga suas Havaianas, As Legítimas, aquela com as tiras douradas, elas vão morrer de inveja.

Boston

Junho 24, 2008
* Esta viagem aconteceu em 07 de junho
Alugamos um carro, um Chrysler 300, um GPS e pegamos a estrada em direção a Boston. Bom, na verdade não foi bem assim…o carro era automático e eu nunca tinha dirigido um desses, fazer o que? O KA é 1998, nem existia isso naquele tempo. Mas me acostumei rápido e depois que descobri que em um carro automático a perna esquerda não faz nada, foi moleza. A estrada é uma free way de velocidade moderada, 55 milhas por hora (cerca de 90 km/h) e para um carro que atinge 260, foi moleza. O GPS nos salvou e concluímos que é impossível viajar de carro nos Estados Unidos sem ter um.

Chrysler 300 -Praça de I.M.Pei em frente à Christian Science Church
Fomos sem reserva de hotel e o GPS nos salvou outra vez porque tem uma lista de hoteis por cidade, além de postos de gasolina, estacionamento, atrações turísticas, hospitais, farmácias e restaurantes. GPS, não saia de casa sem ele. Visitamos o Fenway Park a casa do Boston Red Sox, campeão mundial de baisebol ano passado, bem no dia do jogo, mas não compramos ingresso porque não tínhamos tempo, uma partida tem a duração de quatro a cinco horas e durante a temporada um time joga mais de 120 partidas. Boston é também a terra do Celtics, campeões da NBA Liga Nacional de Basquete e do Patriots de Futebol Americano, vice-campeão da temporada passada. Em Boston estão a Harvard University que já formou 40 prêmios Nobel e 7 presidentes norte-americanos, e o Massachusetts Institute of Technology – MIT.


Porta de Entrada de Harvard – Fenway Park, a casa do Boston Red Sox
Chegamos por um subúrbio e nos impressionamos com a quantidade de casas com a bandeira norte-americana hasteada, significando que ali tem alguém servindo nas forças armadas, e pela primeira vez nos demos conta de que o país em que estamos vivendo estes meses está em guerra. New York nem percebe, mas os subúrbios e as cidades pequenas sabem bem.

No sábado à noite na loja do hotel (Sheraton) ficamos vadiando na internet e resolvemos pesquisar para ver que obras famosas estavam lá além de uma praça belíssima do I.M.Pei, do dormitório Baker House do Alvar Aalto além do anexo da biblioteca pública do Philip Johnson. A biblioteca pública de Boston é a segunda no mundo que abriu para o público e está na tese do meu doutorado. Surprise! Le Corbusier, Saarinen e Gropius! Marcamos um super roteiro no GPS (!) e acordamos bem cedo domingo depois de jantar numa taverna chamada Whiskey´s e de fazer umas fotos pela noite.

Prédio comercial e Anexo da Biblioteca Pública – Philip Johnson
Os prédios do Saarinen, uma capela e um centro de eventos no MIT são bem interessantes. O Baker House do Aalto fica prejudicado nesta época porque as árvores estão com folhas, mas fizemos fotos inusitadas da parte dos fundos, da casa do gerente do dormitório e das visuais que nunca vimos em livros para mostrar para nossos alunos. O espaço de convivência é extraordinário e quase nunca explorado na literatura. Visitamos o MIT Architecture, um prédio eclético, com um grande átrio, e não resistimos a caminhar pelas salas de aula. Fomos invadidos de uma imensa melancolia das oportunidades perdidas nas más administrações das escolas por onde passamos.
MIT Architecture – Baker House Aalto – Centro de Eventos Saarinen
Gropius é um barato. O Graduate Center, antigos dormitórios dos alunos graduandos, atual dormitório da mundialmente reconhecida Harvard School of Law, são singelos e elegantes. Simples, planos que se interseccionam, espaços de convivência para os alunos, passarelas com colunas muito esbeltas. Grande vãos simétricos, prédios de até 4 pavimentos. Uma aula de arquitetura elegante desperdiçada com alunos do Direito. Em alguns momentos tivemos a sensação que estávamos em Brasília, nas quadras 400,e foi bom saber que a arquitetura se baseia e se refaz na história dela mesma, renovando-se, recriando-se, surpreendendo…como sempre dissemos. Não sei sobre vocês, mas eu e a Aline estávamos certos.

Depois fomos ver a obra de Le Corbusier;
E para falar a verdade, Le Corbusier é demais.

O prédio é perfeito. Está encaixado no entorno, tem escala e todos os pontos cruciais do que ele pensava…terraço jardim, pilotis, brises, e o passeio arquitetural…ah…o passeio arquitetural. desculpe se você não é arquiteto, mas temos que falar disso. O Corbu (como aquele “mala” da Ulbra chama ele…) fez um percurso perfeito. Passando de uma rua para outra pelo meio do prédio através de uma rampa é possível perceber os melhores ângulos, as decisões mais trabalhadas, as convicções mais expressas. Cada passo é uma surpresa, cada surpresa uma nova história, bem como o Bregatto costuma dizer na aula 03 de PA-1. O Carpenter Center (isso mesmo, um centro de carpintaria de Harvard feito pelo arquiteto mais famoso do mundo) é uma aula de arquitetura, um acerto concreto. Não resistimos à foto de Modulor com a câmera equilibrada em cima de um muro.



Boston foi genial, uma lição de arquitetura em diversas visões: I.M. Pei e um espaço público lúdico; Saarinen e suas coberturas curvas; Aalto e os materiais telúricos; Philip Johnson e a releitura do passado; Gropius e seus planos que criam espaços, e Le Corbusier, que nos deu de presente o passeio arquitetural pelo Carpenter Center para arrematar um final de semana memorável. Boston é aqui!
FUTILIDADES, MODA E TENDÊNCIAS Back in New York…
Por Aline Figueiró
Uma das modas de verão em New York é usar esmalte rosa pink nas unhas do pé. Nada demais, mas o demais é que nas mãos a cor é diferente, bem clarinha ou nenhuma. No Brasil chamamos isso de Renda ou Misturinha, mas aqui está tão forte a moda que se a gente pede a mesma cor nas mãos e nos pés as chinesas manicures riem da gente naquela língua estranha que elas falam meio parecido com inglês. Gostou? Sênquiú!

Aniversário

Junho 22, 2008

Sexta-feira foi meu aniversário. Quando eu era criança, faltava a aula nesse dia, e quando comecei a trabalhar, faltava ao trabalho. Sempre fiz isso, ficava fazendo coisas mais divertidas ou não fazendo nada em casa. Pela primeira vez em 45 anos não deu para faltar ao trabalho e tive que trabalhar no dia do meu aniversário. Em compensação, eu e a Lili almoçamos no A.J.Maxwell´s (57 W 48th St), considerado um dos dez melhores steaks dos EUA. A conta foi cara, muito cara, mas a proposta era experimentar um pouco da NY inacessível. Á noite pegampos o trem e fomos para o Greenwich Village. Jantamos num italiano chamado Cafe del Mare (89 Macdougal St) onde um garçom gordinho reclamou da Aline porque ela colocou queijo ralado em cima do risoto de camarões e cogumelos. Acho que por causa do nome do restaurante, falamos bastante sobre Santa Maria del Mar em Barcelona, a catedral que inspirou Le Corbusier a pesquisar uma nova luz para Ronchamp. Dali saímos para um bar com música ao vivo chamado The Bitter End (149 Bleecker St), que como diz o nome (Amargo Final) fica aberto até bem tarde de madrugada. No Bitter a banda toca por cerca de uma hora e depois é substituída por outra. Isso acontece a noite toda. Ouvimos várias bandas e tomamos várias Budweiser, sempre lembrando de deixar sobre o balcão um dólar para cada cerveja para a Bartender. Voltamos de táxi para casa e o resultado foi dormir no domingo até as onze. NY é um bom lugar para comemorar o aniversário.

Chegando de mudança

Junho 20, 2008

Então tá. Depois de usar o blogspot por algum tempo, descobri o wordpress e me mudei de vez para cá. Este blog conta minhas andanças por New York e outras cidades nos EUA durante o tempo em que estou trabalhando por aqui. Se você quiser conhecer a saga desde o princípio, visite o blog antigo em http://marcelopontesny.blogspot.com , ou navegue para os primeiros posts aqui mesmo. Dê uma circulada e veja se alguma coisa lhe interessa, na pior das hipóteses Eu vou me divertir, quem sabe você pega carona? Hoje, 20 de junho, é meu aniversário, parece um bom dia para mudanças, a partir de hoje, New York é Aqui!


The Harlem

Junho 12, 2008
Essa semana uns bons amigos de Brasília vieram para New York. Marcamos um encontro na sexta à noite e jantamos juntos no Chow, um restaurante de moderna cozinha Tai, com uma ótima comida em um ambiente cheio de gente bonita no Greenwich Village. Depois caminhamos por ali e deixamos eles em casa perto da Washington Place, a praça que tem o Arco do Triunfo, onde Bob Dylan começou sua carreira musical cantando em troca de moedas para as pessoas que levavam as crianças para passear. Tentamos pegar um táxi para casa, mas foi impossível, a disputa estava fortíssima, era meia noite, e precisamos caminhar até o metrô e pegar um trem para casa.
    

Sábado cada um foi para seu lado (nós e nossos amigos) . Fomos na Ponte do Brooklyn, uma impressionante estrutura sustentada por cabos com a extensão de mais de 1600 metros. É possível atravessar a Brooklyn Bridge a pé ou de bicicleta de maneira absolutamente segura. A ponte, de 1883, teve sua estrutura recuperada durante a gestão do famoso prefeito novaiorquino Rudolph Giulliani, aquele do Tolerância Zero. Lá de cima pode-se ter boas visuais de Chinatown e do Skyline de NY. Também avistamos o Píer 17, e depois descemos lá para visitar. Um conjunto urbano do início do século XX, ao lado do Rio Hudson, que mantém as características portuárias, mas foi totalmente restaurado com restaurantes, lojas, espaço de espetáculos e museu.

Domingo marcamos de encontrar esses amigos no Harlem para o brunch. O local escolhido foi o Sylvia´s – Queen of Soul Food, um restaurante tradicional com gospel brunch, ou seja, almoço cedo ou café da manhã tarde, com música gospel ao vivo. O lugar não é muito grande, mas a comida, The Talked About Barbecue Ribs (o falado churrasco de costelinhas com molho barbecue) é muito boa. O som também era legal, uma mistura de gospel americano, soul e Rythm and Blues.

Depois do almoço, uma volta pelo Harlem. Quando Bill Clinton deixou a presidência dos EUA instalou seu escritório em uma área do Harlem para ajudar a revitalizar a região, que já foi uma das mais ricas da cidade e é uma das mais antigas zonas residenciais. A coisa deu certo, o Harlem é um lugar muito tranquilo e movimentado, obviamente não foi só por isto, mas foi uma demonstração de confiança. Mesmo estando nos anos 2000, ainda se sente um pouco a pressão da segregação que ocorreu ali e resultou em manifestações nos anos 40 e violentos conflitos raciais nos anos 60 e 70. Preconceito é um bicho selvagem que vive dentro das pessoas e se alimenta da dignidade dos outros. De resto, o Harlem tem uma arquitetura espetacular para quem curte o ecletismo, totalmente vitoriana, com casas de tijolos marrons e vermelhos, com senhoras bem arrumadas e grandes chapéus indo para a Igreja.

Passamos pelo Lenox Lounge, uma casa noturna de grandes personalidades do Blues e do Jazz, que existe desde 1939 (também é conhecido como Zebra Room) com sua guitarra pendurada na vitrine. Depois pelo Apollo Theater, onde existe até hoje a free wednesday (quarta livre) para amadores se apresentarem e descobridores de talento tentarem ficar milionários. Alguns dos nomes que foram descobertos nessa quarta livre incluem Jackson Five, Marvin Gaye e James Brown, se você não ouviu falar deles, deve ter desembarcado de Marte faz pouco tempo. o Apollo é uma instituição do Harlem. Na esquina da Lennox Avenue, rebatizada de Malcom X Boulevard, o edifício que tomou o lugar da livraria onde Malcom X iniciou suas manifestações por igualdade. Na esquina da Malcom X com a Martin Luther King Jr, não resistimos e tiramos uma foto.

No meio da tarde voltamos para casa, o Harlem é legal, dali surgiram movimentos que mexeram com a sociedade e com a cultura, além do conceito de direitos humanos e liberdade a partir do final dos anos 30, novos ritmos que influenciaram a música de diferentes maneiras. Caminhando nas ruas do Harlem, me senti um intruso curioso em um espaço que foi conquistado com muita luta e sofrimento. Pior do que isto, nos sentimos desconfortáveis em pensar que um dia essas mesmas pessoas foram obrigadas a se refugiarem ali, separadas de outras pessoas pela quantidade de melanina na pele. O Harlem tem uma energia muito forte, mas é um gueto que não precisava ter acontecido. Preconceito é mesmo uma coisa estúpida.

* Esta postagem é de 04 de maio de 2008